03 setembro 2019



minhas muitas línguas se perdem de si,
inventando,
criando,
transpondo
mil e uma formas de ser langue e expressar parole
para cada destroço que cruze os seus múltiplos caminhos.

eu não sei ser eu,
deixo que sejam por mim.
nem só, eu me sou.
nunca me serei.
sou a cruz que carrego,
o vazio inóspito,
a resposta sem pergunta.

minhas muitas línguas são autônomas,
como eu poderia controlá-las se o meu Eu me foge aos dedos? 

verde água, marejada.
me afogo e subo ofegante,
com os pés cansados de estar sempre em movimento,
nunca descansados em terra firme.

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eu sou aquilo que nunca ousei imaginar,
mesmo com todas as possibilidades cabíveis
da minha mente que se forma, no apesar
dos delírios impossíveis.

eu sou aquilo que transcende a fala,
não se explica, se enrola e sufoca
no meio da amígdala,
presa.
mas a presa não se prende,
se desprende no choro de uma miserável
e se reconstrói no futuro
do presente,
nua e indecente.

eu sou aquilo de que se duvida,
a mulher histérica
no cataclismo inicial da vida
que jorra,
inunda,
apavora.

para que o mundo permaneça vivo,
eu sou a força da buceta que jaz queimando
a última brasa de um genocídio esquecido.

o problema, percebam, é esse cigarro...
me traz memórias proibidas.

de súbito, eu sou a minha mãe na ânsia de se atirar pela janela.
sou a voz resguardada de minha avó,
o olhar feroz de minha tia em sentinela
e um corpo feminino, maldito, que me fez matéria.



eu me construí na condição do sonho.
com a flor impregnada na epiderme
e o céu abaixo dos pés,
confio apenas na pressa
que me devora feito um verme.

mas as horas vêm até mim devagar,
ninguém nota,
porque eu as trago do além-mar.
trago feito o baseado que fumo,
trago até que meu ego desapareça,
o corpo derreta
e a realidade atropele 
o que me restou desse planeta.

nada,
nada do que eu fui me abraçaria agora.

posta do avesso,
eu corro.
e, com o coração preso na mão,
sei que dessa vez não morro.